AULA INAUGURAL
FERAL – bichos, humanos e outros seres errantes

Nos últimos anos, a palavra feral começou a aparecer por todo lado: em debates de ecologia, arte, filosofia. Mas o que acontece quando a feralidade não é só uma metáfora bonitinha para “natureza selvagem”, e sim o nome de vidas empurradas para fora de todas as categorias que importam?
Penso em cães abandonados que formam matilhas ferais, em colônias de gatos e bandos de porcos, em crianças expulsas da sociedade, em povos inteiros traídos pelos contratos políticos e “naturais” que prometiam protegê-los. Penso também em Tiago João da Silva, o menino-aranha do Recife, criança em situação precária que escalava prédios, virou lenda urbana e foi assassinada. São figuras ferais: nem “selvagens” no sentido romântico, nem “domesticadas”; vidas inventadas nas fendas.
Além das histórias contemporâneas, a aula volta também à história da ciência: às classificações de Lineu e à subespécie humana Homo ferus, criada por ele, que reunia as chamadas “crianças ferais” lado a lado com grupos humanos considerados “menos humanos” pela localização geográfica. Interessa ver como a feralidade foi usada para racializar a taxonomia, separando humanos “plenos” de humanos tratados como quase-bichos — e por que seguimos autorizados a tratar bichos e outros organismos extra-humanos como vidas que valem menos ou nada.
Quero falar de feralidade como efeito de pactos rompidos entre bichos, humanos e mundos: quando a domesticação falha, quando as fronteiras não seguram mais, quando a invenção de outra forma de vida vira questão de sobrevivência. Sobre espécies de todo tipo e migrações, intencionais ou não. Desse lugar fronteiriço entre o colapso e a invenção do novo.
Formato
– aula on-line ao vivo (Google Meet)
– 17/12/2025, às 20h (2h a 2h30 de duração, com espaço para perguntas)
– haverá certificado
Gravação
A aula do dia 17/12 será gravada.
A gravação ficará disponível apenas para quem se inscrever nessa edição, por 21 dias, para que seja possível rever o conteúdo ou assistir caso não se consiga estar ao vivo. Esse prazo é um meio-termo entre ter tempo real de assistir com calma e não transformar a gravação em conteúdo “eterno de prateleira”.
Mais adiante, devo retrabalhar esse material dentro da Academia Fantasma, em formato de curso gravado, mas isso será outra configuração – com outro contexto e provavelmente outras aulas junto.
Valores e modalidades
Para conseguir sustentar esse trabalho de forma independente, sem instituição bancando, criei três modalidades de inscrição:
– Feral – R$ 150 – valor sustentável
– Saturnália (solidária) – R$ 220 – ajuda a custear bolsas
– Glossolalia – R$ 280 – inclui o Fascículo II de Glossolalia feral + 20% de desconto em um curso meu em 2026
Bolsas
Quero que essa aula seja acessível também para quem não pode pagar o valor cheio agora, sem que eu trabalhe de graça. Há um número de bolsas integrais e parciais, destinadas prioritariamente a pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e/ou pertencentes a grupos historicamente marginalizados.
Quem precisar de bolsa pode escrever para oconceitoferal@gmail.com até 10/12, contando brevemente sua situação e se precisa de bolsa integral ou de valor reduzido. As respostas serão enviadas até 12/12.
Como se inscrever
– fazer um pix para oconceitoferal@gmail.com
– enviar o comprovante + modalidade escolhida (Feral / Saturnália / Glossolalia) para o mesmo e-mail
– as vagas são limitadas; a inscrição é confirmada por e-mail
Presentes de Saturnália
Para acompanhar essa aula, está disponível o Fascículo I de Glossolalia feral, pequeno dicionário parcial para uma aula que ainda não aconteceu. O download é gratuito aqui no site.

Uma das histórias que atravessam esse pensamento é a do menino-aranha, registrada no curta Menino aranha, da cineasta Mariana Lacerda, disponível gratuitamente no Vimeo.
Depois da aula
Esta aula não é um evento isolado, mas a abertura de um percurso: em 2026 vou oferecer um curso de 4 encontros sobre feralidade.
Vamos percorrer os usos contemporâneos do termo feral até a categoria Homo ferus de Lineu, a figura da criança feral na história das ciências e sua importância para a divisão — hoje em crise — entre Natureza e Cultura; casos como o de Marie-Angélique Memmie Le Blanc; figuras contemporâneas como Tiago João da Silva, o menino-aranha do Recife; o genocídio em Gaza; e os discursos e práticas em torno às chamadas espécies “exóticas” e “invasoras”.
Próximos cursos
(em breve)
